domingo, 5 de junho de 2011

Um alguém especial


- Um alguém especial







O dia dos namorados está próximo e você não tem ninguém. Você olha os casais nas ruas e suspira. Porém não admite. Diz que está bem sozinho (a); que está feliz com as baladas. No entanto ninguém fica bem sozinho. As pessoas que circulam na noite, com a luz do dia, sem toda aquela maquiagem no rosto, sem a roupa de festa, sem chapinha no cabelo, sem a desinibição que o álcool provoca, são irreconhecíveis.

Você precisa de alguém que fique com você em um sábado a tarde, dividindo uma tigela de pipoca, assistindo a milésima reprise daquele filme antigo, do qual você nunca viu o final, e mais uma vez não verá, porque na metade do filme começarão a trocar dezenas de beijos, todos com gosto de coca-cola.

Você precisa de alguém que ria junto com você até a barriga doer de suas piadas sem graça, porque a graça está na maneira que você conta, porque você começa a rir antes de terminar a piada, e o seu riso é contagiante, quando se está apaixonado é fácil rir de tudo.

Você precisa de alguém para ligar no meio da tarde sem ter nada para dizer, apenas para ouvir a voz do outro lado da linha.

Você precisa de alguém que tome um banho de chuva com você, e ache isso o máximo, sem se importar com as outras pessoas que passam pela rua e achem aquilo uma maluquice.

Você precisa de alguém que te abrace depois de um dia ruim, e mesmo sem falar nada, você sinta que tudo de ruim já passou.

Você passa a vida toda procurando por alguém especial, sem se dar conta que nesse exato momento há alguém procurando por você. Sim, você, com todos os seus defeitos, manias e sonhos. Um outro alguém precisa de alguém como você. Basta manter o coração aberto, perder o medo de ser feliz, perceber de uma vez por todas que você é um alguém especial.



Publicado no Folha de Londrina,
Jornal Paraná Centro,
 Revista Uma Nova Visão.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Memórias do Galo.


Memórias do Galo.


Tive inúmeros bichos de estimação na minha infância. Desde cachorros, gatos, coelhos, micos, galos... Minha mãe chegou a acreditar que eu seria veterinário. Entretanto o que espantava não era a diversidade dos animais, mas sim as qualidades inusitadas que alguns possuíam.
Aos oitos anos tive um cachorrinho chamado Sheique que caía em prantos quando eu me fingia de morto. Eu ficava imóvel estirado no chão, ele não parava de choramingar e lamber o meu rosto enquanto eu não me levantava. Difícil de acreditar? Pois, eu juro! Nota-se que não há como digitar essa crônica de dedos cruzados.
Tive uma cadela chamada Samantha que era centroavante do meu time de futebol. É claro que ela não conhecia as regras do jogo. Mas corria feito doida atrás da bola, tentando abocanhá-la. Como a bola era maior que sua boca; de focinhada em focinhada ela driblava seus adversários e marcava vários gols- alguns contra- também derrubava muita gente durante a partida. Samantha não tinha muito senso de direção, nem espírito esportivo. Quando finalmente abocanhava a bola era o fim da brincadeira. Depois de furar umas cinco bolas, ela foi expulsa do time. No entanto entre todos os meus animais de estimação o mais terrível e temido foi o Galo.
Zetti (nome dado em homenagem ao ex-goleiro do São Paulo) era um galizé, uma espécie de galo pequeno um pouco maior que uma pomba. Entretanto sua aparência inofensiva era uma cilada. As pessoas se aproximavam e diziam; Olha que galinho bonitinho! Ele eriçava as plumas do pescoço, em posição de ataque e esporava as canelas e calcanhares de suas vitimas. Em pouco tempo se tornou o terror da vizinhança. Eu morava perto de uma escola, muitas crianças transitavam em frente a minha casa, o Galo escapava pelas frestas do portão e avançava em todas elas, sem distinção de sexo, religião, ou cor. Eu ficava da janela gargalhando enquanto as criançinhas fugiam apavoradas. Havia uns moleques valentes, que munidos de paus e pedras desafiavam o Galo, mas ele botava todos para correr. As visitas ignoravam o cachorro, que não era manso, e pediam para prender o Galo. O que era muito difícil, pois o Galo dava um jeito de escapar por entre nossas pernas e descia a espora nas visitas. Logo a rua da minha casa ficou deserta, e as visitas escassas.
Como se fosse pouco, o Galo deu uma surra no cachorro para provar quem era o rei do quintal. Começou a atacar os de sua própria casa, o que nos obrigava a usar calças jeans grossas para não ter os tornozelos esfolados. Um dia o Galo invencível foi vencido pela velhice e bateu as esporas. Entre todas as crianças do bairro fui a única a ficar infeliz.

Ricardo Chagas

Publicado na Folha de Londrina 23/09/09

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Desastres do amor


Desastres do amor


Quis o destino que ele fosse um romântico. Justo na época em que o romantismo tornou-se uma banalidade. E procuraria o amor nos lugares mais impróprios possíveis, o que resultaria numa série de incontáveis desastres.
No prezinho se apaixonou pela garota de cabelos encaracolados, esculpiu para ela um coração vermelho feito de massa de modelar. Como não tinha muita aptidão artística, à escultura não lembrava um coração, mas sim, um pedaço de pizza mastigado e posto para fora. A garota não compreendeu a obra surreal e o denunciou para a professora, que o puniu por mau comportamento.

No primário se apaixonou pela garota de cabelos loiros, e ofereceu a ela um iogurte de morango. Naquele dia descobriu-se que a garota era alérgica a lactose. E desde então todas as crianças foram proibidas de trocarem seus lanches. Ele se tornou um pária entre toda a classe. Principalmente para o garoto gordinho que trocava as frutas que trazia, por balas e paçoca.

No ginásio se apaixonou pela garota mais popular do colégio, a primeira a ter seios. Não pequenos pontinhos salientes que alfinetavam a blusa, mas grandes esferas que saltitavam durante as aulas de educação física. Ele não lembra o nome da garota, lembra dos seios, e da grande decepção que deve quando ela começou sair com um garoto mais velho, o primeiro a dirigir.
Apaixonou-se pela garota do outro colégio, a que tinha olhos brilhantes. Foi nessa época que descobriu que era um tímido. Mesmo sabendo que a garota também gostava dele, ele não conseguia se comunicar. A não ser à distância por uma estranha linguagem corporal semelhante à mímica. Ela teve que tomar a iniciativa. E ele descobriu que quando estava nervoso gaguejava, trocava as palavras, as mãos ficam úmidas de suor, o corpo teso e esquecia como se beijava...

Havia algumas garotas que se apaixonavam por ele, no entanto ele estava preocupado demais com suas próprias paixões para se importar com as paixões dos outros. E se apaixonou pela professora, pela vizinha, pela mãe divorciada do seu amigo. Comprava buquês de flores que causavam alergia, bombons suíços que tinham gosto de leite azedo, roupas que não serviam. A professora quase o reprovou, a vizinha se mudou, e apanhou do amigo para aprender nunca mais dar em cima da mãe dos outros.

Na faculdade se apaixonou pela moça de olhos verdes. Presenteou-a com dezenas de versos anônimos. Ela reuniu os versos e publicou um livro. E ficou conhecida entre os outros acadêmicos como a nova Cecília Meireles. Cansado de tantas frustrações decidiu deixar de lado o coração e cuidar da vida profissional. Talvez se conquistasse uma instabilidade financeira, conseguiria um relacionamento estável. E provou ser tão eficaz nas finanças quanto no amor. Oscilava de emprego em emprego, sempre fazendo maus negócios.

Desiludido, sem saber se entrava para um seminário, ou se virava um cafetão. Por acaso reencontrou uma antiga amizade. Percebeu pela primeira vez que sua amiga de infância, apesar de jogar bola bem melhor do que ele, não era um menino. Que atrás daquelas lentes grossas havia olhos azuis, que as sardas e o aparelho nos dentes a deixavam com um ar sensual de Lolita. E quando desmanchava as tranças tinha um cabelo bonito. Que ela tinha um ótimo senso de humor e também gostava de poesia. Descobriu o quanto é bom dizer e ouvir eu te amo, sem segundas intenções. E os dois foram felizes juntos, até que o casamento os separou.

Ricardo Chagas

Crônica publicada no jornal Folha de Londrina 03/02/20011

domingo, 31 de outubro de 2010

Pão e circo.


Pão e circo.

       Como é bom assistir os debates eleitorais na televisão. Enquanto os candidatos suam embaixo de seus ternos e trocam farpas e alfinetadas, nós rimos. É bom aproveitar enquanto há tempo. Logo os papéis se inverteram e tudo voltará a ser como antes. Após as eleições, nós suaremos enquanto os políticos irão rir as nossas custas.
       Nossos governantes , assim como os romanos na antiguidade, sabem que tudo que a população necessita é de pão e circo. Na antiguidade os imperadores romanos davam para o povo uma alimentação precária e proporcionavam grandes espetáculos nos coliseus afim de entretê-los, que consistia em guerreiros se gradeando, ou enfrentando leões famintos sobre o olhar sanguinário de uma plateia alvoroçada. Na atualidade o governo fornece a alimentação básica para o povo através de programas assistenciais, como o Bolsa Família, a TV fornece o entretenimento com o futebol, novelas e a violência fictícia ou não.
        Mas como mudar o país? Qual seria a solução para nossos problemas? Na universidade professores de esquerda e de direita tentam nos convencer com suas ideologias. O que seria melhor, insurreição ou privatização? Sei lá. Bom mesmo era o tempo que eu achava que os termos: esquerda e direita se referiam a canhotos e destros.
        Na dúvida sugiro continuar a seguir o exemplo grego com algumas pequenas modificações. Mais entretenimento para o povão. Os políticos deveriam nos divertir mais, apenas os debates eleitorais que acontecem de dois em dois anos é muito pouco. Eles deveriam se gradear todos os dias em horário nobre, quem sabe alguém solte um leão faminto no meio deles para alegrar ainda mais a plateia.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Reflexões sobre a infância


Reflexões sobre a infância



Sinto um pesar ao perceber as lembranças da infância se apagarem da minha memória cansada. Hoje eu sei que a infância é a melhor fase da vida. Como era bom passar o dia todo em cima de uma árvore, alimentando-me de seus frutos. Nunca mais subi em uma árvore, confesso que até tentei há pouco tempo, mas não consegui. Hoje eu só como alimentos industrializados. Lembro-me do meu amigo Buíu pedindo-me para contar outra história. Eu, de cima de uma árvore improvisava outra narrativa sem sentido, ao qual ele ria tanto. Meu Deus! Como eu gostava da gargalhada daquele moleque. Hoje eu sei que sempre fui e sempre serei um contador de histórias.

Que saudades eu tenho da infância. Daquele mundo de imaginação e fantasia. Onde as folhas que caíam das árvores no quintal, tornavam-se soldados de um exército imbatível. E as pedras do jardim eram o esquadrão inimigo. Minhas tardes ensolaradas transformavam-se em batalhas épicas. Como era bom alimentar as formigas e seguir sua fila de operárias até descobrir o seu esconderijo. Eu que nunca quis crescer. Queria ser um garoto perdido da terra do nunca. Queria ter superpoderes para salvar o mundo. Naquele tempo era fácil distinguir o bem e o mal.

Mas veio a adolescência com seu turbilhão de transformações. Veio a vida adulta e tudo ficou menos colorido, mais pontiagudo e maçante.

No entanto, de repente surge aquele mesmo sorriso ingênuo, aquele brilho constante no olhar que somente uma criança é capaz de ter, aquela alegria que contagia tudo ao seu redor. Retorna a esperança de salvar o mundo. Seria o regresso da infância? Não. É o meu filho que sorri para mim.


Publicado no Folha de Londrina em 13\10\10

sábado, 2 de outubro de 2010

Um Messias de terno e gravata



Está chegando o dia. Todos nós teremos que, por alguns momentos, desligar a televisão, sairmos da frente da tela do computador, abdicar da sagrada cervejinha dominical, e nos dirigirmos às designadas zonas eleitorais e escolher os representantes no poder Legislativo e Executivo. Que deveriam, teoricamente, trabalhar em prol de melhorias nas comunidades, e uma melhor qualidade de vida nos municípios. Mas, convenhamos, qual cidadão brasileiro, por mais ingênuo que seja, ainda acredite na honestidade dos representantes?

Todos os dias, os meios de comunicação despejam em nossas casas dezenas de denúncias de corrupção cometidas por aqueles que ajudamos a se elegerem nas últimas eleições. Todas elas marcadas pela impunidade. E o que nós, povo brasileiro, fazemos a respeito? Sorrimos (sorriso quase sempre marcado pela ausência dos incisivos), e dizemos que é assim mesmo. Foi sempre assim e sempre será.

Até quando continuaremos com essa resignação tola? Quais de vocês saíram do conforto dos lares, nos últimos dias, para ouvirem um candidato discursar em cima de um palanque, após a proibição dos showmícios? Quais de vocês doaram cinco minutos do próprio tempo para lerem com atenção as propostas de um candidato no verso de um santinho? Quantos de vocês aproveitaram o horário eleitoral gratuito, na televisão, para assistirem um DVD pirata?

Lamento informá-los, mas, agora, não há tempo suficiente para fazer uma pesquisa ampla sobre a integridade moral dos candidatos e com uma grande probabilidade de acerto. Por isso, rezem! Rezem muito! Não importa qual religião siga. Toda superstição também é válida (amuletos, ferraduras, pés de coelho, sal grosso...), para que sejam eleitos aqueles que melhores estão preparados, e que, quando estiverem exercendo os respectivos cargos, não sejam corrompidos pelo poder.

O povo brasileiro é cheio de crendices. Uma delas a que, entre os inúmeros candidatos que assumirão os cargos em 2011, haja um messias! Que pela primeira vez deixe de lado o egocentrismo, e pense em primeiro lugar nos mais necessitados.


Publicado no Folha de Londrina em 2008
No Paraná Centro 2010

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Sete de setembro não existe mais


Sete de setembro não existe mais


Não existem desfiles de sete de setembro como antigamente. Quando a cidade toda se reunia para ver os alunos marcharem de uniforme. A bandinha tocava o hino nacional. A bandeira do Brasil lá no alto imponente, acima da bandeira estadual e municipal, balançava com o vento. Hoje os alunos não precisam mais sair de casa na manhã do feriado e dormem até tarde, ficam o dia todo na internet. O nacionalismo resumiu-se ao símbolo do Google pintado de verde e amarelo. A banda municipal virou um caminhão de som semelhante ao um trio elétrico baiano, que só é usado na época de campanha eleitoral.

No primário éramos obrigados a decorar o hino nacional. Ficamos horas debaixo de um sol a pino, preocupados em não errar a letra, completamente desafinados. No ginásio apenas mexíamos os lábios enquanto uma enorme caixa de som, que batizamos de caixa de abelhas devido à qualidade do som, tocava o hino. Hoje os alunos mascam chiclete de boca aberta durante o hino para fazer de conta que cantam.

Para provar que sete de setembro perdeu o significado fomos às ruas em pleno feriadão, munidos de prancheta e caneta nas mãos, com o seguinte questionamento: Hoje é dia de quê? Após entrevistar as poucas pessoas que encontremos nas ruas, chegamos ao seguinte resultado: 40% responderam ''Não me aborreça, quero tomar minha cervejinha em paz''. 30% que era o dia em que Pedro ''Alves'' Cabral gritou independência ou morte. 15% que era dia da bandeira. 10% que era dia de sete de setembro. 5% que era dia da independência. Fomos além em nossa pesquisa e perguntamos o porquê de Dom Pedro I gritar independência ou morte. A resposta mais criativa que obtivemos foi: ''Para fundar Brasília e sugar o dinheiro dos cofres públicos.''

No término de nossa pesquisa, quase fim de tarde, avistamos uma solitária bandeira do Brasil no alto de um sobrado. Próximo a um varal ela sacudia em meio a cuecas, calças e sutiãs. Indagamos ao cidadão na sacada do prédio:

- Então, amigo, celebrando a independência?

- Quê? A bandeira? Está aí por causa da Copa. Esqueci de tirar.


Publicado no Paraná Centro em 2009 e em versão atualizada em 2010
No Folha de Londrina 08/09/2010