segunda-feira, 14 de maio de 2012

o dia em que faltou luz.

          Estava no chuveiro quando a luz acabou. Em outras ocasiões isso me deixaria muito irritado. Mas porque o dia estava quente e abafado, e uma ducha de água fria caiu bem, e porque meu estado de espírito estava leve, não me importei. Os meus planos para aquela noite consistiam em me inscrever em um concurso público, via internet, enquanto ouvia música pelo rádio, depois assistir a um documentário pelo monitor do computador, e se possível, dormir cedo. No entanto sem energia elétrica meus planos foram frustrados. Nem um bom livro eu poderia ler, o dia ia morrendo suave e a luz que passava pelas frestas das persianas chegara ao fim. Já estava ficando entediado quando o meu celular tocou, era uma amiga que há tempos não via, só que no melhor da conversa a ligação caiu, o meu celular perdeu o sinal, por mais que eu tentasse fazê-lo voltar a funcionar, não conseguia. Se fosse outro dia teria ficado estressado, bradado pela milésima vez que iria jogar fora aquela porcaria de celular, entretanto estava tranquilo e feliz. Era um daqueles dias que parece que um anjo bom, desce do céu, e passa o dia todo ao seu lado sussurrando palavras boas em seu ouvido.
             Resolvi ir jantar enquanto ainda havia luz natural e poderia ver o que estava colocando dentro do prato. Como sempre havia um jantar quentinho preparado pela mãe, um privilégio que por mais que a gente cresça, não quer perder. O mau costume de jantar em frente à TV é tanto, que mesmo sem energia elétrica, fui para a sala com o prato na mão, maquinalmente. Minha mãe estava deitada no sofá da sala. Juntos no escuro, iniciamos uma longa conversa, como há muito tempo não fazíamos. Falamos sobre tudo, tudo mesmo, a vida, a morte, espiritualidade; passado, presente e futuro. Minha mãe me contou a história de meus antepassados, minha avó e meu avô e pessoas ligadas a eles. Histórias tão trágicas e cheias de superação, que dariam enredo para várias crônicas e contos e um bom romance, que certamente irei aproveitar no futuro. Na penumbra da noite minha imaginação desenhava a imagem nítida de muitos personagens que nem mesmo cheguei a conhecer.
             E quando a luz voltou nem demos bola para a TV, ela ficou parada no meio da sala, feito uma grande caixa vazia e sem vida. Quando fui deitar, antes de dormir, refleti sobre tudo o que aconteceu, descobri que havia herdado da minha mãe o meu dom de contar histórias, que os laços que nos uniam estavam fortalecidos. E que, embora tenha faltado luz, aquela foi uma das noites mais iluminadas da minha vida. 

 Publicado no folha de Londrina 09/05/2012

terça-feira, 27 de março de 2012

Amores de faz de conta.


Amores de faz de conta.

Faz de conta que eu te amo e você me ama. Que o abraço é apertado para não escapar. Que o é amor é devagarzinho para não terminar. Que essas quatro paredes são nossa muralha medieval. Vamos esquecer os carros que riscam a noite lá fora, com suas músicas estridentes e letras obscenas. O gosto de álcool e cigarro na boca. Vamos tingir os lábios de gloss de morango, cereja e tutti-frutti. Faz de conta que tudo vai dar certo.

Faz de conta que é um conto de fadas, com um final feliz. Que ainda somos puros, rabisque nossos nomes em um muro, dentro de um coração flechado. Que ainda somos românticos e lemos poesia aos suspiros, que os heróis vencem no final. Que ainda temos ídolos de pôsteres de parede. Que juntos vamos mudar o mundo.

Faz de conta que é eterno. Se machucar foi sem querer, se sangrar é ketchup. Que ainda escrevemos cartas de amor perfumadas, com corações e rostos felizes no lugar do pingo do “ i ”. Vamos assistir filmes que nos fazem chorar, ouvir músicas que nos fazem transgredir; ler o mesmo livro e marcar as páginas que sei que vai gostar. Vamos conversar noites a fio e esquecer de dormir.

Faz de conta que a noite não vai acabar; que amanhã não é cada um por si. Faz de conta que vai telefonar. Que não é uma paixão efêmera, uma luxuria à toa, um erro de percurso. A consequência de um caminho torto. Faz de conta que estarei ao seu lado ao amanhecer, que você estará ao meu lado quando eu precisar. Faz de conta Que vou te fazer caricia até você dormir, que vou velar seu sono, que vai ter sonhos bons e quando acordar eu ainda estarei aqui.
Faz de conta que tudo não é um faz de conta.


Publicado no jornal Paraná Centro 02/04/2012
Folha de Londrina 19/06/2013

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Viva um novo amor.



Viva um novo amor.


Antes de qualquer coisa quero te perguntar o que você faz aí de cara amarrada, de mau humor, emburrada em plena segunda-feira de manhã?
Não quero saber se seu final de semana foi uma droga. Se você bebeu demais e deu vexame; se ficou assistindo aqueles programas horríveis que passam na TV, que de tão ruins dão até dor de cabeça; se ficou mais uma vez do lado daquela pessoa que sempre diz e faz as mesmas coisas, que antes te fazia suspirar, agora só te faz bocejar.
Não sou o dono da verdade. Só vou te dizer o óbvio. Às vezes precisamos de um chacoalhão para enxergar o que está diante dos nossos olhos. Se você precisa beber para ficar feliz, alguma coisa está errada. Os programas que passam na TV no final de semana são ruins justamente porque ninguém deve passar o final de semana todo assistindo TV. Seu grande amor, já não é tão grande assim. O primeiro amor nem sempre tem que ser o único.

Agora você está no trabalho, que por sinal detesta, no entanto contenta-se porque já teve outros piores. Tem que lidar com o mau humor de seu patrão, dos clientes, com o seu próprio mau humor. Não vê que o tempo está correndo? O brilho do monitor do computador está ofuscando sua visão. Abra as persianas e veja que o sol brilha lá fora. Essas paredes ao seu redor são sua prisão. O mundo não é feito de concreto. Essa pilha de papeis na sua frente é apenas uma árvore que morreu. Você deveria subir em uma árvore de verdade e sentir lá no alto a brisa suave em seu rosto, esticar o braço e apanhar uma de suas frutas. Esse pacote de salgadinhos aí na sua frente é apenas química e artificialidade, isso vai acabar te matando. Aliás, tudo anda artificial demais na sua vida.

Se seu emprego só te traz aborrecimento, procure outro. Sei que a crise está difícil, mas seu salário não paga sua infelicidade. Se o seu amor não te faz mais feliz, deixe-o. Você não ficará sozinha, é linda e inteligente, qualquer homem daria um dedo da mão para estar junto de você.

Não viva feito uma estátua parada no mesmo lugar levando coco de pomba na cabeça. Não faça como o seu patrão que passou a vida juntando dinheiro e perdeu o amor da esposa, dos filhos, dos netos. Perca dinheiro e junte amores. Sua pilha pode ter acabado, mas o relógio do tempo não para de correr. Pouca importa se você é católica, budista, espírita, mulçumana, ou macumbeira. Você só tem essa vida e ninguém pode te garantir outra.

Por isso desmanche essa cara fechada e abra um sorriso. Sorria para o chão, para o teto, paras as paredes. Sorria para um desconhecido na rua. As pessoas nem sempre querem o seu corpo, seu dinheiro, ou o seu mal. Às vezes só querem um sorriso seu, para se sentirem melhores consigo mesmas.

Só você não vê que falta amor na sua vida. E quando falta amor, falta tudo. O trabalho fica mais cansativo. A rotina mais entediante. As pessoas mais intoleráveis. Por isso, se você não pode recuperar seu antigo relacionamento, abra seu coração de uma vez por todas e viva um novo amor.


Texto publicado no Paraná Centro em 19/12/2011
No Folha de Londrina em 28/12/2011

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Sozinhos.com.


Sozinhos.com

Eis que você tem mais de quinhentos amigos no Orkut, conhece pessoalmente pouco mais de duas dezenas, vê com freqüência meia dúzia. A janelinha do Msn não para de piscar,tanta conversa empolgada dedilhando o teclado. O brilho do monitor ofusca sua visão, tanto que chega a doer à cabeça. No e-mail você recebe vários slides com imagens bonitas, frases positivas, que você recebe e envia para centenas de pessoas. Quer mudar de aparência? Coloque umas fotos novas no seu álbum online, atualize o seu perfil no site de relacionamento. Quer saber como anda um amigo? Clique na imagem dele. Sua vida toda, e a alheia, exposta ao clicar de um botão. Não é tão bom xeretar na vida dos outros? E ainda reclamam da falta de privacidade.

Eis que o contado pessoal se tornou descartável. O sentimento digitalizado. Esquece-se que uma conversa face a face é bem melhor que trocar letrinhas coloridas e bonequinhos animados em frente um monitor inexpressível. Mesmo que se use webcam, a imagem é lenta, fria e quase estática. Nada substitui o esplendor de um rosto que se ilumina com um sorriso. Dos olhinhos que sabem sorrir por si próprios. Mesmo que esses mesmos olhos, às vezes derramem lágrimas e fiquem vermelhos de tristeza por palavras que ferem. Suas palavras não têm a sabedoria de um provérbio chinês, nem são capazes de criar frases de efeito a todo instante, mas são originais, verdadeiras. Não dedilhe um teclado empoeirado, segure a mão do seu próximo, mesmo que a mão transpire em excesso e fique trêmula no momento errado. Esquece-se que a beleza está na falha, em tudo que é humano e, portanto imperfeito.

O uso excessivo dos sites de relacionamento, pela sua instantaneidade, criou um novo tipo de ansiedade: a de ficar sempre plugado para evitar a impressão que se está perdendo algo. De fato perde-se algo. O sol que brilha lá fora. A vida que não te espera para viver, que não é conectada por cabos, mas por frágeis laços afetivos que podem romper com o tempo, com a falta de convivência No entanto se fortalece com um abraço, um aperto de mão, uma palavra amiga, um gesto de carinho. Você não vai preencher seu vazio existencial com pixels, megabytes o escambau. Só irá preenchê-lo com amor.

A internet criou um ciclo de contados superficiais que talvez aumentem seu circulo social, mas não é capaz de suprir suas necessidades afetivas mais profundas. O virtual é sinônimo de irreal. Por isso tire seu computador da tomada, e vá viver. Não seja um solitário online. Não acesse o Sozinhos.com. Não permita que sua vida vire um Fake.


Publicado no jornal Paraná Centro 27/11/11

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O Amor se foi.


O Amor se foi.

Meu bem o Amor se foi, não se despediu. Não reclamou da toalha molhada sobre a cama, da falta de dinheiro, ou da educação dada às crianças. Não deixou nenhum bilhete na geladeira, acho que não vai voltar. Acho que, sistemático que é, ofendeu-se por não notarmos sua ausência durante dia comum e partiu em silêncio. No entanto deixou aos nossos cuidados seu filho caçula, que se chama Saudade.

Mas meu bem, Saudade chora tanto. Chora quando ouve aquela canção antiga no rádio, quando se deita na cama grande e vazia, quando reconhece algum cheiro na fronha do travesseiro; chora até mesmo, quando recebe carícia de outra pessoa. E esse choro é de um silêncio tão triste que chega a doer na alma.

Saudade é como se fosse um filho nosso agora. Vamos perder noites de sono com o seu choro, ter que lidar com a revolta e insensatez de sua juventude, por fim, seu amadurecimento. Saudade é como se fosse um de nossos filhos, porém ao contrário de nossas outras crianças, nunca nos dará alegria ou orgulho.

O Amor se foi. Fica essa marca de batom no livro que emprestei, outros tantos levou consigo, nunca mais vou ler. Fica o DVD que assistimos juntos, deitados no sofá, o final feliz não será mais o mesmo. Fica uma peça de roupa intima esquecida na gaveta de meias, intocada. Ficam os últimos versos que rabisquei pensando em nós; amassei, viraram bolinhas de papel. Ficam os porta-retratos, cartas, bilhetes, esquecidos em uma caixa de sapatos, empoeirados.

Sei que ainda há Paixão e Atração, mas o Amor se foi, breve eles irão também. É melhor fechar a porta antes que venha o Ódio e a Traição. É melhor trancar as janelas antes retorne a Mágoa e o Rancor. Vamos fechar a casa e tirar férias. Mas eu quero ir para a praia, você para a capital. Quero ir para o norte e você para o sul. Você quer visitar o seu pai, eu a minha mãe. Você quer ir para a cidade grande, eu para o interior. Então é melhor cada um seguir sua própria viagem. Quem sabe não encontramos outro lar. Cuide da Saudade, prometo buscá-la aos fins de semana.

Quem sabe a gente reencontre o Amor. Numa fila qualquer, em uma mesa de lanchonete. Num sábado ensolarado, caminhando no parque. Em uma segunda chuvosa, debaixo de uma marquise, escondendo da chuva. Meu bem, aconteça o que acontecer, não se esqueça de telefonar.



Públicado no jornal Paraná Centro 07/11/11
Folha de Londrina 23/11/11

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A escola do morro dos ventos uivantes


Entro no ônibus para subir a serra. São quase cinquenta quilômetros morro acima. Abro um livro, mas a condução chacoalha tanto, as letrinhas parecem saltitar do papel, como pipoca na panela. Começo a fitar o horizonte, uma imensidão de montanhas, vales e morros que parece não ter fim. Uma brisa suave bate em meu rosto, o que me faz suspirar. Fico remoendo sentimentos por dentro que não sei explicar, inefável. De repente o ônibus para, uma garota entra, um raio de sol atravessa a janela e ilumina o seu rosto, deixando seus olhos esverdeados, mas ela nem dá bola para mim; volto a fitar a paisagem, essa sim, agora a linha do horizonte tem um formado curvo, parece sorrir para mim.

As matas começam a ficar mais densas, as pontas dos galhos das árvores tocam as janelas, borboletas coloridas voam ao nosso redor. Será que esse ônibus sobe rumo ao céu? Há um muro enorme coberto de flores multicoloridas, um portão grande e dourado; será ali a entrada do paraíso?

Subo o morro porque tenho uma missão, devo cumpri-la. Lá no alto, pessoas me aguardam. Há tempos abandonaram suas metas e agora que retornam, contam comigo para ajudá-las. Por isso não devo titubear, tenho que superar os empecilhos e conduzi-los até o fim de suas jornadas.

Quando finalmente chego ao alto do morro, vejo que tudo é muito improvisado e precário, entretanto tenho uma missão e devo cumpri-la. Os que me esperam não são muitos, mas esperam muito de mim. Por isso me faço de orador no alto de um palanque, sem palanque algum. Vejo o rosto cansado de alguns, eles tiveram um longo dia de trabalho e agora estão aqui. Por isso me faço de palhaço para arrancar um sorriso deles. É preciso disciplina para manter a ordem, recupero a autoridade. Todos se vão satisfeitos, mas tenho que ficar, pois não há um ônibus para retornar, apenas no dia seguinte e estou muito longe de casa. Durmo em um colchão jogado ao chão. O vento uiva a noite toda, no entanto não é triste como no livro de Emily Bronte, o vento anuncia um novo tempo que começou.

Subo o morro para lecionar para jovens e adultos, que há tempos abandonaram a escola e agora voltam; minha missão é fazer que concluam seus estudos e aprendam o máximo possível, mas na verdade quem aprende com eles sou eu. Subo o morro para cuidar de minha nova vida como professor. E durmo satisfeito na escola do morro dos ventos uivantes.


Publicada no jornal Folha de Londrina 02/11/11

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Os Passos do meu filho


Meu filho a passos trôpegos vai desafiando o mundo. Eu sigo ao seu lado, tento segurar a sua mão, agarrá-lo pela camiseta, pelos fundilhos das calças, na tentativa de evitar um tombo. Quisera eu forrar todo o chão com almofadas. Em vão: a uma mera distração, ele foge em disparada. Cai, levanta-se sem choro, estufa o peitinho e segue imponente. Meu filho tão pequenino e já quer caminhar sozinho.

Meu filho ainda não fala. Apenas une algumas sílabas, diz algumas vogais, algumas interjeições. Fico ao seu lado, repito inúmeras vezes: Papai, papai. Ele diz: cabum, dadu, bobo, qualquer coisa que não se pareça nem um pouco com papai. Retiro-me um pouco frustrado. Minha mãe diz que assim que eu saí, ele disse sorrindo: PA-PAI.

Meu filho sorri. Tem apenas os incisivos inferiores, o que não impede que o seu sorriso seja o mais lindo que já vi. Ele parece um coelhinho. Quando peço um beijo, ele me beija de boca aberta, cheia de baba e lambuza toda a minha bochecha. Mas o seu beijo é mais doce do que todos os beijos das mulheres que amei.

Ao penteá-lo, seus cabelos finos e ralos parecem fugir da escova, insisto nessa tarefa meticulosa e ao mesmo tempo desajeitada. Quando termino, ele de imediato desmancha o penteado. Fico aborrecido? Não. Você tem razão filho, fica bem melhor de cabelo bagunçado.

Outro dia o levei para o parquinho, aproveitei que não havia ninguém e brinquei feita criança, desci o escorregador com ele no colo, fui ao balanço. Meu filho me olhava desconfiado, como se pensasse: Pronto! Meu pai ficou maluco. Não, filho, eu apenas volto à infância para me sentir mais próximo de você.

Ele escapa da minha mão e começa a andar. O corpinho vacila para a direita, para esquerda. Meu coração gela. Será que vai esfolar os joelhos na calçada áspera? Minha intenção é levantá-lo no colo, mantê-lo longe do chão perigoso. No entanto, sei que se fizer isto ele vai chorar, espernear, até eu não ter alternativa a não ser colocá-lo no chão novamente. Sei que tudo isso é apenas mais uma metáfora da vida. Meu filho terá que caminhar sozinho, as quedas serão inevitáveis. Contudo quero estar ao seu lado como agora, e oferecer a mão, para que ele possa se levantar outra vez.

Texto Publicado no Folha de Londrina em 08/04/11 e várias vezes no Jornal Paraná Centro.